ontem inventei de ler "juventude" (youth, joseph conrad) e pra variar acabei me envolvendo muito com a narrativa de marlow (personagem importante). esse cara conta sua primeira viagem a bordo de um navio um tantíssimo pedreiro saindo da inglaterra rumo ao oriente, bangkok, para outros quatro amigos juntos numa roda de bebedeira. no meio de várias situações, uma delas é uma tempestade que durou sei lá quantos dias, o que impunha aos tripulantes dias e noites de insônia e tentativa de fuga do juízo. joseph conrad conta tão bem as coisas que o céu cinza de ontem de manhã começou a me inquietar e pegue desconforto com o livro na mão e o clima tenebroso dentro da cabeça. de repente, dentro da ventania do mar, começam os assobios detestáveis do vento aqui em casa! eu já meio doente e insone sequelado comecei a achar massa o medo estranho que me circundava! pensando "que cara pra narrar perfeitamente, meu amigo!" e rindo desse medo. chegou uma hora (isso deve ter durado alguns minutos, mas enfim...) que tive de me levantar pra aliviar e procurei fechar as janelas da casa vazia. foi quando vi um rastro de sol entrando pela janela de outro quarto e por ali fiquei lendo um verdadeiro cara falar através de memória marítima, imaginação e sentimento sobre a juventude a bordo do judea.
já tinha lido "coração das trevas" do mesmo autor e parece que o cara tem um talento mesmo para fazer palavras tornarem imagens, legais e simpáticas ou não. num sei se era a fraqueza desses dias... é onda minha, marlow (digo joseph)!
"O mar estava branco como um lençol de espuma, parecia um caldeirão de leite fervendo. Não havia uma claridade nas nuvens, nem mesmo do tamanho da mão de um homem, que durasse mais de dez segundos. Era como se não houvesse céu, nem estrelas, nem sol, nem o Universo - nada, a não ser vagas enraivecidas e o furioso mar (...) Não nos lembrávamos mais do dia da semana, do nome do mês, em que ano estávamos, e não sabíamos se já tínhamos estado alguma vez em terra firme (...) Estava contente. Por nada neste mundo trocaria aquela experiência. Eu tinha momentos de exaltação. Quando o velho e desmantelado casco pulava mais violentamente, com a popa indo para o alto, parecia-me que atirava, como um apelo, como um desafio, como um grito para as nuvens sem misericórdia, as palavras escritas na popa: 'Judea, Londres. Fazer ou morrer'".